Eu nunca fui muito chegado a listas. Nunca me seduziu essa compulsão por hierarquizar tudo: o melhor time, a melhor era, o ano mais mágico. Comparar 2025 com 2019, 1981 com qualquer outro… pra mim isso sempre soou como uma tentativa pobre de organizar algo que é, por natureza, íntimo demais. Cada época tem um cheiro próprio. Um som específico. Um tipo de alegria e um tipo de dor que não se repetem. Os disparos da memória afetiva não obedecem à lógica — obedecem à vida. Prefiro viver o Flamengo assim: presente. Sem ansiedade de decidir quando fui mais feliz. No futebol, felicidade quase sempre só faz sentido depois que passa. Sou terceira geração de flamenguistas. O Flamengo não entrou na minha vida como escolha racional; entrou como herança. Daquelas que você não questiona, só carrega. Passei a acompanhar mais de perto por volta dos 14 anos, quando o jogo deixa de ser só festa e começa a virar identidade. Ouvi como quem escuta mitologia as histórias de 1978 a 1983. Vi, já com olhos ate...
Dizem que felicidade incomoda. E se isso for verdade, o Flamengo deve ser hoje a maior usina de incômodo já registrada na história esportiva do hemisfério sul. Basta o Mengão respirar que já começa o chororô coordenado dos antis: “arrogância”, “soberba”, “time comprado”, “receita inflada”. É quase um coral desafinado, mas persistente — como mosquitos em dia de calor. E no meio desse coro tem sempre ele, o filósofo da reclamação profissional: Abel Ferreira. O homem que jamais perde — apenas é vítima de circunstâncias metafísicas . Quando Filipe Luís desmontou o Palmeiras como quem troca uma lâmpada, o que ouvimos? Nada parecido com “o Flamengo foi superior”. Em vez disso, vieram parábolas, lamentos e analogias de autoajuda que fariam até a Carminha — digo, Leila — revirar os olhos. Aliás, se tem alguém revirando os olhos nos bastidores, é ela mesma: a CEO emocional. Imagina ver o Flamengo projetar quase o dobro de receita para o ano que vem… Mesmo após a tungada industrial...